A loucura e conflito das personagens de Shakespeare podem humanizar a economia

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Este março Varoufakis, um Europeísta comprometido mas crítico acérrimo da União Europeia, ergueu-se para explorar como as complexidades e contradições dos personagens do Bardo moldaram sua própria visão sobre economia, durante a sexta palestra anual do Kingston Shakespeare Seminar, uma parceria entre a universidade e o Rose Theatre.


Ao derivar conceitos-chave de “praxis” a “indeterminação” das personagens e enredos do Bardo, Varoufakis disse que “em grande parte, a minha compreensão da economia tem sido influenciada pela incapacidade dos economistas de capturar o que importa na natureza humana”.


“A linguagem e mentalidade dos economistas é tão seca. Cada indivíduo é descrito como um autómato, robótico e sem emoções. É então que recorremos a Shakespeare – e cada personagem é como uma república de loucura e conflito.”


Varoufakis foi Ministro das Finanças no governo grego de janeiro a julho de 2015, no auge da crise económica do país. Famoso pelas suas negociações com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional durante as negociações de resgate, ele descreveu o que aconteceu na Grécia como uma tragédia de Shakespeare. Ao não conseguir garantir o que ele achava ser um acordo justo para seu país, pendurou as botas e demitiu-se do governo na manhã seguinte depois de um referendo nacional que apoiou sua posição mas acabou por ser ignorado quando o governo grego aceitou o resgate.


Com a plateia lotada no Rose Theatre, Varoufakis explicou como o trabalho do Bardo tinha muito a ensinar-nos sobre política no cenário internacional.
“As peças de Shakespeare lançam uma luz brilhante sobre as tentativas desesperadas dos poderes estabelecidos de evitar a responsabilidade ética. Eles insistem que a ética é para os fracos: os fortes fazem o que quiserem e os fracos sofrem como devem.”


Um economista e pensador matematicamente treinado com uma profunda apreciação das artes e da cultura, Varoufakis cita referências às obras de Shakespeare ao longo dos seus textos e discursos. Relatou que observar a União Europeia era como assistir a Otelo, comparou a chanceler alemã Angela Merkel a Macbeth e aviva a sua escrita com citações shakespearianas como o grito do rei Lear para “sacudir o superfluxo” da riqueza – o título de sua palestra no Rose Theatre. Antes do evento, referiu também a forte influência que o mundo artístico teve sobre ele ao longo da sua vida.


“Eu cresci num país que tem a sua própria tradição teatral – a antiga tradição grega – onde Shakespeare sempre foi apreciado como um prolongamento dessa tradição. A primeira vez que li Shakespeare foi em grego, a primeira vez que vi as suas peças foi na Grécia como jovem adolescente” disse Varoufakis.
“No entanto, como economista, senti que estava em dois mundos – a minha carreira era em economia, mas o meu coração estava com a representação shakespeariana da humanidade. Fiquei fascinado por essa justaposição – de um lado, os simplórios que habitam os trabalhos de pensadores económicos formativos, como Adam Smith, e, de outro, o modelo extremamente complexo de homens e mulheres de Shakespeare.”


Nascido em Atenas em 1961, Varoufakis mudou-se para Inglaterra aos 17 anos para estudar economia. Depois de chegar ao país, comprou uma cópia das obras completas de William Shakespeare para aperfeiçoar o seu inglês e começou a viajar para conhecer a Royal Shakespeare Company. Durante esse tempo, tornou-se fã do trabalho de Sir Peter Hall – ex-diretor do RSC e diretor fundador do Kingston’s Rose Theatre.


Peter Wilson, professor de Estudos de Shakespeare da Kingston University, disse que foi essa conexão que persuadiu Varoufakis a fazer a palestra anual de Shakespeare da instituição no Rose Theatre.


“Peter Hall foi um dos maiores encenadores do mundo. Ele acreditava no conceito de trazer as artes para as pessoas – algo que harmoniza com a maneira como Yanis trabalha”, disse o professor Wilson. “O Yanis tem fama de popstar e é muito carismático – ele traz economia e política para novos públicos. Ele também é um exemplo para os jovens de como as ideias podem moldar o mundo – um verdadeiro modelo do que um intelectual público deveria ser”.


Num tom auto depreciativo, Varoufakis disse que avisou o professor Wilson que talvez ele não fosse a pessoa mais qualificada para proferir uma palestra sobre Shakespeare.


“O Richard assegurou-me que era o que ele queria – alguém que não fosse um estudioso de Shakespeare para vir e explicar como o trabalho do Bardo afetou o seu modo de pensar. Bem, a culpa é do Richard se não resultar – mas é um convite tão esplêndido, que eu nunca poderia recusar”.


Artigo original publicado por openDemocracy.

 

 

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